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Anos 70. E um belo dia, o velho e teimoso Tanaka, é interrompido no seu trabalho pela sua esposa. Há um semblante sério. Muito sério. Não lhe diz imediatamente do que se trata.
Puxa a velha cadeira do patriarca e o faz acomodar. Até lhe serve um café, com um pratinho de manju, seu doce predileto. Quem sabe, possa adoçá-lo, pensa. Prudência de mãe. Faz um respiro profundo, mas mal consegue avançar com palavras. Um silêncio denso e dramático começa a avançar pelo ambiente, a cada centímetro daquela cozinha. Carregado de suspense, como aquele que precede uma grande revelação ou surpresa.
“Sabe, a Michi, a nossa Michiko...” O velho Tanaka sorrí. Sua única menina e caçula dos quatro. Uma das razões do seu suor cotidiano. Sua “Ohime-sama”, a preciosa princesa do reino Tanaka. Por quem abandonara a enxada quando ainda estava no ventre e decidira alcançar outros filhos, já enviados para a grande metrópole. A menina, que outro dia acabara de presenteá-lo com um belo diploma na área médica. Aquele que está na parede, para todos verem. Com o carimbo da prestigiosa universidade, bem entendido.
Sua esposa ainda tenta em vão balbuciar alguma coisa, ininteligível. “Desembucha, mulher, o que tem a Michiko?”
É inútil elaborar frases. E nem cabe um eufemismo, logo agora. “Sabe a Michi,...aí vai!!! Está... com quase 4 meses...”
Silêncio. Surpreendente silêncio. O velho não se descompõe. É japonês. E da Era Taisho! A dignidade e o orgulho interceptam qualquer manifestação emotiva. Um intenso calor lhe sobe à cabeça e sente o seu sangue remover-se nas veias, mas mantém-se impassível .
Permanece calado, sem um fio de reação que atravesse o seu olhar. E ereto, sobre a cadeira. A mesma compostura e inexpressividade dos velhos samurais, diante da morte. Ainda que essa morte fôsse um “cabra da peste” com um endereço, telefone e um nome. Um tal de Giovanni. Que ousou, corajosamente, ferir sua honra milenar. “E não com punhalada direta, esse covarde. Mas na minha Michi!”, corrói-se, por dentro.
Ainda nem tocou o café. Até as moscas decidiram parar seus zumbidos, esperando alguma ação naquele imenso vazio. Quem ousa quebrar aquele longo, paralisante e insuportável silêncio é uma frágil gota d’água. Daquela torneira com defeito. A gota se espatifa “estrondosamente” sobre a pia. Como a cascata do Iguaçu. Metaforicamente, sobre a cabeça do velho.
A Mãe não se contém. O instinto materno e protetor supera qualquer medo. O pingo d’água lhe dá coragem, e dispara. “Sabe, é um bom moço... Estudado e de boa família, lá da Mooca... O casamento, deixemos pra depois”... E ainda tenta dissipar. “Só pode ser um bom moço, porque é da mesma faculdade da nossa Michi!”.
Cinco meses depois, a primavera bateu a porta dos Tanaka. Era março, mas não importava. O velho Tanaka se tornara Ditian. De um menino saudável e bonito. E ele sorriu. Sorriu como nunca havia feito! Nem menos à própria esposa havia mostrado tantos dentes ao sorrir!
É verdade que, desde aquela data, o menino crescera como causa de acirradas disputas entre as duas famílias. Em qual família ele passaria mais tempo, recebendo os mimos de fins de semana. Já aos quatro anos de idade, o menino sabia distinguir perfeitamente como se comportar em cada uma delas.
Na casa do Nonno, podia extravasar suas traquinagens e fazer muito barulho. E ainda recebia muitos beijinhos, abraços e contagiosas gargalhadas por isso. Até o volume da sua voz aumentara. Coisa do Nonno, era claro. Sabia que lá, se comia o melhor “espaguete ao pesto” do mundo, que só a Nonna sabia fazer. E outros, os mais idosos, o chamavam carinhosamente de “nostro bello giapponesino”.
Já no colo do velho Tanaka, ele sabia que as poucas palavras do Ditian valiam tanto afeto quanto a profusão de palavreados do Nonno de lá. Aquí, cresceu ouvindo a fábula do “Urashima Taro”; e aos cinco anos, já sabia fazer belos origamis de sapo e gatinho como ninguém. Sempre silencioso. A sua primeira visita ao Instituto Butantã, para conhecer a Ciência de perto, foi no colo do Ditian. Com o “obentô” feito pela Batian. Aquela bondosa Batian, que colocava mais furikake na sua caixinha que na do Ditian. Sucederam-se muitos outros passeios “científicos”, até o menino crescer, e se tornar num belo dia, num bom doutor.
Ainda hoje, o velho e também teimoso patriarca dos Carbonari, acredita cegamente que todos os melhores adjetivos do “menino”, – inteligente, amoroso, bonito, honesto, batalhador e generoso – são de sua direta herança. “Ah, o nosso belo bambino, um digno Carbonari! Não tem paura de nada, um vero lutador. Como o nostro Giulio Cesare!”. Um bambino de 30 anos, é verdade. Mas o velho tem lá suas razões.
Lá do outro lado da cidade, no Aclimação, o velho Tanaka pensa o mesmo. Sentado em sua desbotada poltrona ergonômica, fecha o livro e pousa seus óculos. Olha para o infinito da sua janela e suspira profundo: “Ah, o nosso Hiro-chan, tão estudioso e “gambariyá”. É um digno Tanaka! Sempre foi bom em Ciências. Quem sabe até um prêmio Nobel, vai saber... Só pode ser do nosso sangue de samurai! ”...
E desde então, todos viveram felizes para sempre.
Essa, termina aquí, porque fictícia. Mas outras histórias de outros Tanakas, as verdadeiras, prosseguem sem fim, em alguma parte do Brasil..
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Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil