Olá, faça o Login ou Cadastre-se

  Conte sua históriaLuci Suzuki › Minha história

Luci Suzuki

Milão / Italia - Itália
48 anos, Compradora no Setor de Modas

A bela surpresa de Tanaka-san


Anos 70. E um belo dia, o velho e teimoso Tanaka, é interrompido no seu trabalho pela sua esposa. Há um semblante sério. Muito sério. Não lhe diz imediatamente do que se trata.

Puxa a velha cadeira do patriarca e o faz acomodar. Até lhe serve um café, com um pratinho de manju, seu doce predileto. Quem sabe, possa adoçá-lo, pensa. Prudência de mãe. Faz um respiro profundo, mas mal consegue avançar com palavras. Um silêncio denso e dramático começa a avançar pelo ambiente, a cada centímetro daquela cozinha. Carregado de suspense, como aquele que precede uma grande revelação ou surpresa.

“Sabe, a Michi, a nossa Michiko...” O velho Tanaka sorrí. Sua única menina e caçula dos quatro. Uma das razões do seu suor cotidiano. Sua “Ohime-sama”, a preciosa princesa do reino Tanaka. Por quem abandonara a enxada quando ainda estava no ventre e decidira alcançar outros filhos, já enviados para a grande metrópole. A menina, que outro dia acabara de presenteá-lo com um belo diploma na área médica. Aquele que está na parede, para todos verem. Com o carimbo da prestigiosa universidade, bem entendido.

Sua esposa ainda tenta em vão balbuciar alguma coisa, ininteligível. “Desembucha, mulher, o que tem a Michiko?”

É inútil elaborar frases. E nem cabe um eufemismo, logo agora. “Sabe a Michi,...aí vai!!! Está... com quase 4 meses...”

Silêncio. Surpreendente silêncio. O velho não se descompõe. É japonês. E da Era Taisho! A dignidade e o orgulho interceptam qualquer manifestação emotiva. Um intenso calor lhe sobe à cabeça e sente o seu sangue remover-se nas veias, mas mantém-se impassível .

Permanece calado, sem um fio de reação que atravesse o seu olhar. E ereto, sobre a cadeira. A mesma compostura e inexpressividade dos velhos samurais, diante da morte. Ainda que essa morte fôsse um “cabra da peste” com um endereço, telefone e um nome. Um tal de Giovanni. Que ousou, corajosamente, ferir sua honra milenar. “E não com punhalada direta, esse covarde. Mas na minha Michi!”, corrói-se, por dentro.

Ainda nem tocou o café. Até as moscas decidiram parar seus zumbidos, esperando alguma ação naquele imenso vazio. Quem ousa quebrar aquele longo, paralisante e insuportável silêncio é uma frágil gota d’água. Daquela torneira com defeito. A gota se espatifa “estrondosamente” sobre a pia. Como a cascata do Iguaçu. Metaforicamente, sobre a cabeça do velho.

A Mãe não se contém. O instinto materno e protetor supera qualquer medo. O pingo d’água lhe dá coragem, e dispara. “Sabe, é um bom moço... Estudado e de boa família, lá da Mooca... O casamento, deixemos pra depois”... E ainda tenta dissipar. “Só pode ser um bom moço, porque é da mesma faculdade da nossa Michi!”.

Cinco meses depois, a primavera bateu a porta dos Tanaka. Era março, mas não importava. O velho Tanaka se tornara Ditian. De um menino saudável e bonito. E ele sorriu. Sorriu como nunca havia feito! Nem menos à própria esposa havia mostrado tantos dentes ao sorrir!

É verdade que, desde aquela data, o menino crescera como causa de acirradas disputas entre as duas famílias. Em qual família ele passaria mais tempo, recebendo os mimos de fins de semana. Já aos quatro anos de idade, o menino sabia distinguir perfeitamente como se comportar em cada uma delas.

Na casa do Nonno, podia extravasar suas traquinagens e fazer muito barulho. E ainda recebia muitos beijinhos, abraços e contagiosas gargalhadas por isso. Até o volume da sua voz aumentara. Coisa do Nonno, era claro. Sabia que lá, se comia o melhor “espaguete ao pesto” do mundo, que só a Nonna sabia fazer. E outros, os mais idosos, o chamavam carinhosamente de “nostro bello giapponesino”.

Já no colo do velho Tanaka, ele sabia que as poucas palavras do Ditian valiam tanto afeto quanto a profusão de palavreados do Nonno de lá. Aquí, cresceu ouvindo a fábula do “Urashima Taro”; e aos cinco anos, já sabia fazer belos origamis de sapo e gatinho como ninguém. Sempre silencioso. A sua primeira visita ao Instituto Butantã, para conhecer a Ciência de perto, foi no colo do Ditian. Com o “obentô” feito pela Batian. Aquela bondosa Batian, que colocava mais furikake na sua caixinha que na do Ditian. Sucederam-se muitos outros passeios “científicos”, até o menino crescer, e se tornar num belo dia, num bom doutor.

Ainda hoje, o velho e também teimoso patriarca dos Carbonari, acredita cegamente que todos os melhores adjetivos do “menino”, – inteligente, amoroso, bonito, honesto, batalhador e generoso – são de sua direta herança. “Ah, o nosso belo bambino, um digno Carbonari! Não tem paura de nada, um vero lutador. Como o nostro Giulio Cesare!”. Um bambino de 30 anos, é verdade. Mas o velho tem lá suas razões.

Lá do outro lado da cidade, no Aclimação, o velho Tanaka pensa o mesmo. Sentado em sua desbotada poltrona ergonômica, fecha o livro e pousa seus óculos. Olha para o infinito da sua janela e suspira profundo: “Ah, o nosso Hiro-chan, tão estudioso e “gambariyá”. É um digno Tanaka! Sempre foi bom em Ciências. Quem sabe até um prêmio Nobel, vai saber... Só pode ser do nosso sangue de samurai! ”...

E desde então, todos viveram felizes para sempre.
Essa, termina aquí, porque fictícia. Mas outras histórias de outros Tanakas, as verdadeiras, prosseguem sem fim, em alguma parte do Brasil..


Enviada em: 01/02/2008 | Última modificação: 01/02/2008
 
« A autêntica cozinha híbrida

 

Comentários

  1. satoru takaesu @ 31 Dez, 2007 : 05:08
    Ciao Luci! Hummm, que delícia esse seu depoimento artístico. Claro que artístico, porque qualquer crítico tem de concordar comigo, mesmo a contragosto, que a culinária é a mais saborosa e indispensável de todas as artes. Afinal, ela enche a barrriga de eruditos e ignorantes, com ou sem preconceitos. Fiquei com água na boca só de lembrar dessas ocasiões casamenteiras, tanto no interior, quanto nas cidades. Eram verdadeiros espetáculos -em muitos deles sob a luz de lampiões- e sequer tínhamos consciência disso, afinal éramos uma molecada faminta por arte: comida e festa. Prova disso é a sua descrição dos preparativos, clássica, lembrando a criatividade da improvisação na busca dos ingredientes em falta, até o preparo dos pratos para o triunfal banquete. Ah, sim, e quanto a memória gustativa da infância, Jeff Smith -aquele cozinheiro-pastor-escritor-apresentador de tevê- norte americano, diz que a gente saboreia com gosto a memória dos momentos marcantes da vida. E não é que o gringo lá tem razão ? Pode ser a pior comida do mundo, no mais sujo dos botequins, mas caímos de boca num churrasquinho grego sem pensar. Isso é arte! "Ma que Jun Sakamoto que nada". E fique tranquila darei um jeito de enviar-lhe o agrião para sua sopa de missô aí em terras milanesas. E é claro, junto mandarei a metade de um chuchu bem verde encapado com papel alumínio. Os petiscos você espeta aí com as iguarias italianas deste tempo adulto. Ô delícia, bella! Um grande e delicioso abraço, Satoru

  2. Yassuda Renato @ 18 Jan, 2008 : 19:29
    Adorei sei relato e seu comentário em minha página. Infelizmente lamento lhe dizer que você está certa com relação ao casarão de meus avós. Realmente a casa de meu avô que foi demolida é este casarão de sua infância. Mais do que a especulação imobiliária, o desapego pela memória dos ancestrais, a ganância e a incompetência financeira foram os motivos de sua demolição.Mas vamos mudar o rumo deste comentário e focar em boas energias. A casa de meus avós paternos, que era o casarão à que você se lembra de sua infância, também foi palco de diversas festas do interior da mesma maneira que você tão bem definiu em seu relato. Gostaria de incluir um prato, que era uma sardinha seca e salgada, que faziam em uns brazeiros e que nós, já tontos de fome devorávamos ainda quente, queimando todo céu da boca. Tinha também a feijoada brasileira com gohan japonês, que até hoje é minha forma predileta. Meus avós, não sei bem o motivo, adoravam as festas juninas. Não sei se você chegou a visitar a casa em si, mas ao redor da casa principal, existiam diversas outras casas que serviram de moradia para alguns imigrantes e depois para os funcionários da fazenda de meu avô. Assim ao redor da casa de meus avós existia uma pequena vila formada pelas demais casas com o fundo do terreno aberto para o vale onde corre o rio Paraíba e mais ao fundo a Serra da Mantiqueira. Assim a paisagem era linda e numa noite de lua era coisa de nunca sair da memória. Junte a isso tudo, um povo reunido com japoneses, descendentes destes, caboclos da terra, pessoal da cidade, etc. somado a uma mistura igual de cardápios como você tão bem descreveu em seu relato. Tenho também boas recordações daqueles tempos. Para coroar o evento ainda tinha os fogos de artifício. São momentos assim que fazem a vida ser um tesouro tão precioso. Creio que me lembro onde era o sítio de seus tios. Se eu estiver certo, hoje existe uma indústria de produtos químicos no lugar ou um motel. Próximo do local esta se construindo uma faculdade e todo o local vizinho é ocupado por loteamentos populares. Você encontrará muito pouco da paisagem de nossa infância por lá. Naquela estrada que ligava Moreira Cezar à Pindamonhangaba, foi construído um grande anel viário e hoje a antiga estrada é uma rodovia de várias pistas. O local todo é hoje considerado área industrial e comercial. Existem diversas empresas instaladas lá e outras tanto em construção. Existe também algumas empresas que faliram e as ruínas de suas instalações abrigam mendigos e desocupados. Lamento por lhe informar isto mais um dos últimos pontos que restaram daqueles tempos era o terreno que abrigava o casarão de meu avô ...Existe um loteamento lá chamado, ironicamente, "Jardim Yassuda"...

  3. Thomas Suzuki @ 18 Jan, 2008 : 19:57
    Uau! Parabéns pelo texto! Crítica e muita sensibilidade!

  4. Renzo Morishi-ta @ 19 Jan, 2008 : 18:51
    Excelente comentário do ponto de vista sociológico que você postou no perfil do Thomas Suzuki. Você traduziu em poucas linhas o que eu escrevi em várias linhas e ainda concluiu de forma concisa e condensada o que tive dificuldade de expressar, principalmente o trecho: "Me causa grande perplexidade ao ouví-los pronunciar que o Brasil “recebeu de braços abertos” ou “acolheu” os imigrantes há 100 anos, pois me pergunto quem era o tal Brasil. Só os índios conhecem de fato – e sobre a pele - esse disparate retórico." Finalmente encontrei textos como o seu e do Thomas Suzuki, lúcidos e não-alienados, ao invés de somente depoimentos contando vantagens, de como superaram dificuldades e obstáculos, e a fácil aculturação e à ausência de dificuldades de integraçao à sociedade brasileira.

  5. Carlos A. Kato @ 25 Fev, 2008 : 01:12
    Luci, suas histórias me remetem aos tempso do "inaka do inaka", daquelas festas recheadas de comida e daquele detalhe: "cerveja quente e churrasco frio" de tanto esperarmos o cumprimento do protocolo e aquela frase comum a todos os eventos "konjitsu....". Fantástico, pela sua escrita clara e muito rica. Um grande abraço e parabéns!

  6. Carlos A. Kato @ 28 Fev, 2008 : 01:10
    Luci, obrigado também pela sua visita. Faço votos que continue a escrever suas histórias maravilhosas. Eu estou preparando uma que faz menção ao meu avô, que foi um maestro da orquestra na minha pequena cidade do interior de S. Paulo. É só aguardar. Abraços, Carlos.

  7. Rita de Cássia Arruda @ 5 Abr, 2008 : 06:16
    Parabéns, Luci !!! Tocante relato esse seu. Adorei ler "A bela surpresa de Tanaka-san". Ano passado, fiz uma animação sobre a fábula do Urashima Taro, usando gifs, especialmente para minhas queridas amigas Kaoru e Aki - cuja história de sua passagem pelo Brasil deixei registrada em minha página, aqui, nesse maravilhoso espaço criado pela Editora Abril. Legal que você tenha mencionado a fábula em seu texto. Obrigada por compartilhar conosco sua história.

  8. Luís Francisco Nogueira Vieira de Vasconcelos @ 30 Abr, 2008 : 12:31
    Parabéns! É um texto excelente!! Só de ler... já me deu uma vontade enorme de treinar a escrever crônicas e textos. Muito obrigado por dividir seu texto e pensamentos!

  9. TOSHIO ICIZUCA @ 21 Mai, 2008 : 00:41
    Luci, fiquei muito lisonjeado com suas palavras de elogio, sou apenas um aprendiz de escritor. Aliás, sua história fez me remeteu ao passado quando meu pai ainda estava vivo. Atendendo seu pdido vou acrescentar mais histórias.

  10. Toshio Icizuca @ 29 Mai, 2008 : 23:34
    Gostei do seu comentário sobre minha nova história, típico de pessoas observadoras e conhecedoras da mudanças que ocorrem no mundo em função do poder econômico. Não deveria ser assim, mas é fato. Vc é privilegiada, vive na Europa e assistem coisas que os brasileiros nem consegue imaginar. Estive na Itália em 1976, na época que esse país era governado pela esquerda, bom para a classe operária e péssima para a classe média. Obrigado pelo comentário de quem sabe das coisas, e grande abraço. Toshio

  11. Mauro Kyotoku @ 30 Mai, 2008 : 10:50
    Prezada Sra. Suzuki. Existe uma expressão japonesa que sintetiza uma parte de sua descrição sobre as saudades da cozinha nipo-brasileira de sua infância. OFUKURO NO HAJI, eu traduziria simplesmente pelo GOSTO DA MÃE, ou o sabor da comida da mãe. No meu precário japonês, entenderia ofukuro como o útero materno e haji é o gosto, no é a partícula de ligação.Assim seria o sabor da comida produzida por nossas queridas mães, até hoje sinto falta da dobradinha que minha mãe fazia. A não ser em honrosas exceções, no mundo financeiro-industrial acelerado de hoje, a mãe cozinheira perdeu-se irremediavelmente, então o que é o OFUKURO NO HAJI atual?. Em São Paulo na hora do almoço vê-se incontáveis jovens "almoçando" no McDonald´s. Meu filho, já universitário, diz que de vez em quando tem que "andar" kilometros para saborear estes sanduiches. Certa vez imaginei um conto em que esta cadeia de lanchonetes faliria teríamos muita gente por por aí sentido falta deste novo "gosto da mãe" . Pois é Sra. Suzuki, a cultura japonesa é precisa também para descrever comportamentos humanos.

Comente



Todo mundo tem uma história para contar. Cadastre-se e conte a sua. Crie a árvore genealógica da sua família.

Árvore genealógica

Nenhuma árvore.

Histórias

Vídeos

  • Nenhum vídeo.

» Galeria de fotos

  • Nenhuma foto.

Áudios

  • Nenhum áudio.
 

 

Conheça mais histórias

mais perfis » Com o mesmo sobrenome

 

 

As opiniões emitidas nesta página são de responsabilidade do participante e não refletem necessariamente a opinião da Editora Abril

Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

Sobre o Projeto | Cadastro | Fale Conosco | Divulgação |Termo de uso | Política de privacidade | Associação | Expediente Copyright © 2007 / 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados