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Jorge Tsuneharu Sano

Onda Verde / São Paulo - Brasil
68 anos, otorrinolaringologista

A vinda para o Brasil


Na verdade, o destino da família do diitchan Kanetaro poderia ter sido a Rússia. Antes de vir para o Brasil, conforme minha tia Aiko contou, ele sempre falava em ir para “Karafuto”, ou, Rússia, conforme era chamado (por eles) aquele país... ou alguma região daquele país; mais provavelmente aquelas ilhas ao norte do Japão, ainda em litígio com a Rússia. De qualquer forma, ele não queria ficar em Nigorigawa. E isso é verdade, porque a tia Aiko, nascida aqui, não se conformava, que tendo “sangue azul” e a vida confortável que tinham lá, o pai se decidira por vir ao Brasil e passar por tudo o que passaram. Então curiosa, além de inconformada, perguntou ao pai a razão. A resposta não lhe foi muito convincente, na época. O odiitchan respondeu-lhe que, desde jovem, nunca aceitara o fato de “não poder ver o horizonte” de sua casa, porque a vila de Nigorikawa, onde moravam, se localizava dentro de um vale, como se fosse a cratera de um vulcão. Aliás, um grande vulcão em atividade se localizava a poucos quilômetros dali (ouvi de minha mãe, que também nasceu lá, relatos sobre esse vulcão em erupção, e que deixaram, nela, lembranças aterrorizantes, sobre bolas de fogo na escuridão da noite, enormes e ameaçadoras). Ele sempre afirmava que ali não era o lugar ideal para se criar os filhos, porque em seu conceito queria um lugar que possibilitasse “dar-lhes mais asas”, aumentar-lhes as oportunidades de conhecimento. Por isso já pensara anteriormente em se mudar para “Karafuto”, intenção impedida pelos familiares, anteriormente. Até que surgiu o Brasil e, aí, não teve dúvidas. "De mala e cuia”, aos 43 anos, largou tudo e partiu para o Brasil com toda a família (esposa Kiyo, 32, e sete filhos – Fusa, 14; Ichio, 11; Hanaye, 9; Yoshio, 6; Kazuko, 4; Haruo, 2; Tetsuo, 1), mais a mãe Ika, 69, dois irmãos, Shogoro, 31, e Hina, 51; e mais dois sobrinhos, Koichi Shimada, 22, e Shizue, 15. Ou seja, diferentemente da maioria que veio para fazer o “pé-de-meia” e retornar, vieram mesmo para ficar! “Para dar mais asas aos filhos!” Chegaram ao Brasil no dia 2 de junho de 1932, no porto de Santos, a bordo do Rio de Janeiro Maru, procedente de Kobe.
Mas, minha tia Aiko, que “não dava o braço a torcer”, alguns anos atrás, tendo tido a oportunidade de ir para o Japão, na carona do movimento dekassegui (no caso dela, como “kaseifu”, para cuidar de idosos em hospitais e residências), pouco antes de retornar ao Brasil, em definitivo, resolveu dar um “pulinho” até a Vila de Nigorigawa, a fim de constatar a afirmação do pai. Postou-se, de pé, no meio da vila, e girou, vagarosamente, 360 graus. Só viu montanhas. Deu-lhe razão. Retornou satisfeita... e orgulhosa.


Enviada em: 07/06/2008 | Última modificação: 14/06/2008
 
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Comentários

  1. Sílvio Sano @ 8 Jun, 2008 : 11:12
    Prezado Niisan. Fiquei deveras emocionado ao tomar conhecimento da verdadeira história de nosso odiitchan, pelo lado materno, porque a imagem dele, que ainda me restava, lá de minha infância, baseava-se apenas no período final de sua vida, quando já estava em São Paulo. Razão igual a essa não há, para que nunca tiremos conclusões baseadas em apenas metade do conhecimento. Lógico que nunca menosprezei o nosso odiitchan e nossos tios, mas confesso que nunca lhes dei a devida e merecida atenção. Hoje, ao contrário, orgulho-me imensamente por saber que sou neto de um homem que foi de uma grandeza imensa, abnegado e sempre preocupado com a família, bem como com a coletividade com a qual convivia. Sem contar as “mulheres de Kanetaro”, com suas "fibras” fora do comum, dignas, realmente, do “sangue azul” que lhes corriam nas veias. Igualmente, os tios, que sempre mostraram, ao menos aos meus olhos, semblantes simpáticos mesmo nos momentos de muita dificuldade. Por isso, apesar de já ter tido conhecimento, muitos anos atrás, do brasão Ogura, passarei também a adotá-lo como meu, por seu significado extraordinário, este sim, que conheci apenas agora. おじいちゃん、おばあちゃん、そして おじさんたち、 おばさんたち、大変ご苦労様でした。

  2. Sílvio Sano @ 10 Jun, 2008 : 22:27
    Prezado Niisan, Assim como a história de odiitchan muito me emocionou, ao contrário, a do irmão Shogoro chocou-me, a princípio. Afinal, ele não apenas aderiu aos “kachigumis”, como foi condenado e ficou preso na Ilha Anchieta, dentre oitenta mandantes ou executores. Ou seja, foi figura proeminente na única mácula da comunidade japonesa neste centenário da imigração. Mas, depois, pensando bem, pensando na história milenar japonesa, revendo os muitos exemplos de fanatismo que nos mostraram muitos antepassados por toda a história daquele país, como: os kamikazes (suicidas); a questão do seppuku (harakiri), da defesa da honra; ou o até, não tão recente, caso do soldado Ono, nas Filipinas, que só se entregaria perante a voz do próprio Imperador; etc.; e considerando a questão da formação, que não se baseia apenas na família (por isso Kanetaro pensava diferente de Shogoro e... bem como, nós dois, também – não é, Ni?), conclui que devemos dar um “desconto” à atitude dele, na época. Quem viu “Haru e Natsu”, deve se lembrar da postura do pai das personagens. Ele não era mal intencionado, era apenas um fanático mesmo, por sua pátria e por seu “divino” imperador. Somado-se a isso ainda, tinha também esse vínculo de parentesco com a família imperial. Mas nosso odiitchan, pés no chão, não aceitou e até cortou relações definitivas com ele. Ainda bem que tivemos os dois extremos neste tema. Assim, de maneira neutra, podemos refletir sem favorecimentos e entender, friamente, a questão. Nada justifica assassinatos, sei, ainda mais de consangüíneos. Mas, sabemos, por exemplo, que até em tempos atuais é praticamente impossível fazer um fanático “homem-bomba” desistir de sua determinada intenção. Agora, se temos conhecimento de que, desde criança, ele foi “preparado” rigorosamente apenas para isso, podemos ainda, “aos nossos olhos”, não aceitar sua postura, mas não deixar de entendê-la. Né, não? É isso o que penso dele, agora. Justamente ele, veja só, que me deixou como última imagem uma agradável lembrança de sua pessoa, quando sua história ainda me era desconhecida.

  3. Dr. Jorge @ 30 Ago, 2008 : 11:20
    A história de sua família demonstra que muitos dos imigrantes japoneses vieram ao Brasil com ideais de vida, uns servindo à Pátria de origem e muitos com expectativas de melhorar a qualidade de vida da família, por isso muitos deles nem quiseram retornar ao país de origem. Muitas famílias viviam confortavelmente no Japão, mas não tinham perspectivas de melhorar futuramente, pois o espaço físico era restrito e muitos deles haviam perdido o poder, o que eles consideravam como uma desonra. Assim como o seu avô Kanetaro Ogura, muitos dos chefes de famílias de imigrantes eram pessoas que pensavam coletivamente, muito dignas de respeito com fibra fora do comum e isto foi transmitido aos seus descendentes. Patriotas ao extremo, mesmo longe de seu país, muitos não acreditavam na derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial.A história da Família Ogura e a da minha, tem semelhanças, na sua origem, sendo descendentes da familía da Ex-Imperatriz Nagako do Japão, além disso percebo pelo seu relato que existem outras semelhanças, ou seja, de pessoas com fibras, dignas, verdadeiras, leais nas suas relações com a família, com seus amigos e que lutam por uma sociedade melhor, o que herdamos dos nossos antepassados, é o que há de melhor em nossas famílias.

  4. Tieko Fujiye @ 30 Ago, 2008 : 13:10
    Dr. Jorge Tsuneharu, há muita semelhança entre as famílias japonesas que emigraram ao Brasil, na primeira fase da imigração japonesa, a grande maioria era de famílias que poderiam viver com conforto no Japão, mas optaram por vir ao Brasil em busca de novos horizontes. Muitos dos imigrantes, nem sequer retornaram ao Japão, pois adotaram o Brasil como sua Pátria, mas outros adotaram uma postura fanática diante da 2ª Guerra Mundial, não acreditando na derrota do Japão. A semelhança que percebo entre a minha família e a sua, é o caráter das pessoas: dignas, leais, dedicadas, firmes nos seus propósitos, voltadas à família, características que herdamos de nossos antepassados.

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