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Hiroshi Kasai era o patriarca da família. Em busca de aventura e fortuna do outro lado do planeta, Hiroshi pedira a sua esposa Kiyoko para arrumar as malas e a prole. O casal Kasai partira do Porto de Yokohoma, a bordo de um navio, a 4 de novembro de 1959. A seu lado estavam os filhos Yasukata, Keiko, Tieko e a bebê de 1 ano de idade, Tokiko, que viria a ser minha mãe. Hiroshi Kasai é meu Ditian, corresponde na língua portuguesa a meu avô. Kiyoko, por sua vez, é minha Batian.
Os Kasai, da Província de Fukushima, passaram mais de 30 dias e noites no navio – uma histórica nau, mas que ninguém da família se recorda o nome. Eles aportaram em 9 de dezembro de 1959 em Santos, tendo antes passado por Los Angeles, pelo canal do Panamá e passeado uns dias pela Venezuela.
Durante a viagem, Ditian fez um diário de bordo com fotografias. “Era um aventureiro”, disse minha Tia Ti. Ele queria se lembrar de tudo e por isso se dedicou a esse álbum de fotos, que se tornaria uma relíquia eterna da família Kasai.
* Memórias
Ditian pretendia continuar os afazeres com as técnicas que já dominava no Japão. Era à lavoura paulista que se dedicaria para sustentar a família recém-imigrada. Até finalmente ficar em Barueri, eles passaram pelas cidades de Tamboré, Carapicuíba, Suzano e Mogi das Cruzes, vivendo em fazendas para cultivar arroz e hortaliças. E assim eles criaram os quatro filhos no estado de São Paulo.
De minha família materna, infelizmente não guardo lembranças da Tia Keiko, que há tempos vive no estado de Minas Gerais. Tio Paulo foi o único a mudar o nome, abrasileirando-o. Eu sequer sabia que seu nome era inicialmente Yasukata.
* Destinos cruzados
O sonho de infância de minha mãe era se tornar médica. Ela se tornou paulistana para estudar em um dos melhores cursinhos para realizar esse sonho. Infelizmente, porém, Ditian não podia arcar com a mensalidade da faculdade de medicina da Santa Casa. E, assim, minha mãe optou por cursar a Faculdade de Enfermagem da Universidade de São Paulo, no campus de Ribeirão Preto. E foi em Ribeirão Preto que minha mãe encontrou Milton Kazuyoshi Ogassawara na década de 1980.
Nascido em Colômbia, cidadela vizinha a Barretos, Milton é filho de Maria Aparecida Saguma e Mioya Ogassawara. Ele se graduou na Faculdade de Medicina da Universidade do Triângulo Mineiro em Uberaba, Minas Gerais. E por um feliz destino, ele fez residência médica na Universidade de São Paulo.
Assim meus pais se encontraram. E em 1985 se casaram em Ribeirão Preto. Em 1986, nascia a primeira filha do casal: Juliana Sayuri.
* Famílias
As famílias Kasai e Ogassawara tiveram suas histórias cruzadas e puderam expor as diferenças sutis entre gerações. O nome de minha mãe é Tokiko. Ela tem dupla nacionalidade, porque é uma japonesa “pura” e viera ainda pequena ao Brasil. Por minha família Kasai, posso dizer que sou Nissei, isto é, filha de uma japonesa.
Todavia, o nome de meu pai é Milton Kazuyoshi. Meu pai é Sansei, quer dizer, neto de japoneses. O nome de seus quatro irmãos segue esse estilo: Anísio Ryoji, Afonso Massami, Elza Kazue e Edna Hiroko, minha madrinha. Isto é, na família Ogassawara os batizados foram compostos por um nome abrasileirado e um nome japonês. E os apelidos têm realmente um toque brasileirinho: Milton “Ká”, Anísio “Bô” – porque “boya” significa “menino” –, Afonso “Massa”.
Os três filhos do casamento de Tokiko Kasai e Milton Kazuyoshi foram batizados de Juliana Sayuri, Marcelo Yuhiti e Luciano Yuji. E é curioso notar como os elos com as culturas brasileiras e nipônica foram se atando e se consolidando. Nome de origens italianas – Giuliana, no caso – se mesclam a nomes clássicos e japônicos – Sayuri quer dizer “pequeno lírio” e é o nome da lendária maior gueixa do País. É um misto, portanto, de culturas.
Além dos nomes, os costumes cotidianos das novas gerações nipo-brasileiras passaram por novas facetas. Não é absurdo, na mesa de minha casa, deliciarmo-nos com sushis e sashimis ao lado de um básico arroz com batatas fritas. E também há de se destacar o movimento pendular que perdura entre os países.
Tia Ti ilustra muito bem esse intercâmbio cultural porque seu ofício é exatamente promover a viagem de Dekasseguis – brasileiros contratados para trabalho temporário – ao Nihhon. O escritório da titia Tieko Myashita fica na Praça da Liberdade, na cidade de São Paulo. E de lá ela encaminha trabalhadores brazucas – mas preferencial e principalmente descendentes de japoneses – para empresas diversas, como colossos como a Sony e a Toshiba. Além desse mister, Tia Ti mantém na saleta uma mesa com seu hobby, os origami.
E tia Ti foi justamente quem guiou a viagem de minha Batian Maria, de meus tios Massa e Kazue e de minha madrinha. Todos estavam em busca de uma vida melhor de volta à ilha, e Batian estava em busca de paz e equilíbrio nessa aventura turística que durou quase dez anos.
E nessa temporada distante do Ocidente, é possível dizer que eles constituíram uma nova casa além-mar. Eles não pensam em voltar a viver no Brasil, só querem passear pela tropicalidade brasileira. Na atualidade, o lar é bem oriental.
Porém, minha avó Maria retornou ao Brasil, por motivos de saúde. Mas matar as saudades de lá pode ser simples com milhares de fotografias e lembranças. Dona Maria pode até se gabar por ter a experiência de quem já se divertiu na terceira maior montanha-russa do mundo em Nagashima!
Experiências cá e ali. Esta é talvez a mais preciosa virtude dessa família de nipo-brasileiros. E o encontro das duas culturas é uma experiência de vida que sinto na pele todos os dias, como uma menina dos olhos puxados e de pupilas que se dilatam e se retraem no pôr-do-sol que é o oeste.
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Este projeto tem a parceria da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil