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7 Mai, 2008

Doenças e afins

Ewerthon Tobace

Um dos problemas mais complexos da comunidade brasileira no Japão é a questão da saúde. Muitos brasileiros não pagam o seguro-saúde daqui e sofrem quando sofrem um acidente, ficam doentes ou têm filhos. Boa parte da culpa é dos próprios dekasseguis, que não exigem o seguro-saúde da empresa (o shakai hoken) ou não pagam o da prefeitura (kokumin kenko hoken). Aliás, este último seguro é cheio de polêmicas, pois ele é oferecido aos autônomos em geral (há outras categorias, mas não convém entrar em detalhes), e não a assalariados (caso dos brasileiros). Para saber mais sobre esses dois seguros, clique aqui.

Acontece que muitas prefeituras não oferecem o kokumin a assalariados, então os brasileiros ficam precisam contar com a sorte para não adoecer. Bom, o leitor no Brasil pode pensar que nestes casos é só pagar o hospital e pronto, já que os dekasseguis ganham muito dinheiro. Na verdade, não é bem assim que funcionam as coisas por aqui. Despesas médicas no Japão são caríssimas. O seguro cobre em média 80% do valor. A gente paga apenas o restante e, que muitas vezes, não é nada barato.

Por isso é comum a gente ver aqui no Japão grupos organizando eventos beneficentes para ajudar brasileiros por aqui. Acho até louvável a atitude, mas minha pergunta é: por que não pagou o seguro de saúde? A sorte para essas pessoas enfermas é que o brasileiro é um ser de coração grande.

Aids e outras DSTs

Nesta questão saúde, um problema que corre em silêncio na comunidade é a aids. Outras doenças sexualmente transmissíveis o povo até trata e busca ajuda. Mas no caso dos portadores do HIV, o tabu ainda existe. A própria sociedade japonesa não admite a doença e há poucas campanhas para conter o avanço do vírus. Dificilmente vemos manifestações ou mesmo projetos para incentivar a população a se proteger e também fazer o exame. Então, o que acontece é que os números divulgados pelo governo sobre a questão são baixos. A impressão que se tem é que o Japão é um país quase imune. Há um tempo o país chegou a tratar o problema como sendo de estrangeiros.

Na comunidade há uma organização sem fins lucrativos que luta por esta causa. O Criativos existe há muito tempo, mas não consegue juntar forças para lutar abertamente. As pessoas têm medo de associar a imagem com a doença. Então, a atividade deles se resume a ajudar os que já estão contaminados e distribuir camisinhas em eventos. E olha que não são poucos os que, sabidamente, estão contaminados. São quase 3 mil brasileiros contaminados e que, muitas vezes, não fazem o tratamento por falta de conhecimento, por não ter o seguro de saúde ou por medo de ser descoberto.

O problema da falta de seguro de saúde e da aids na comunidade são complexos. Há muitas implicações e os assuntos são polêmicos. Gostaria de ouvir a opinião dos leitores sobre os temas.

Postado por Ewerthon Tobace | 2 comentários

Comentários

  1. Cristina Kobayashi @ 9 Mai, 2008 : 06:07
    Não conheço o suficiente para opinar sobre os meandros do sistema sanitário e previdenciário do Japão, uma vez que não vivo no país. Mas arrisco a dizer somente que, se um cidadão estrangeiro não encontra soluções ou um sistema sanitário que o beneficie em paridade com o cidadão local, - quase improvável em qualquer outra nação - busca-se. Arranja-se. Informa-se por soluções alternativas. Afinal, não há em nenhuma parte do mundo uma comunidade brasileira tão compacta, organizada e estruturada qto aquela do Japão. Não faltam instituições assistenciais de todos os gêneros (bancos, filiais, consulados itinerantes, serviços de voluntariados, etc ), bem como comporta inúmeros veículos de comunicação brasileiros e um rico mercado de bens direcionados exclusivamente a estes. Venho a saber de vários casos de brasileiros que derramam lágrimas de crocodilo, com a pretensão de obter benefícios sociais sob a bandeira da “igualdade de direito” sem cumprir, em princípio, seus deveres com a própria sociedade que os abriga. De fato, são os primeiros a responderem por evasão fiscal, - sem falar do desprezo pelas regras sociais locais que quase sempre desemboca em microcriminalidades. Como fosse a extensão dos vícios da realidade brasileira, reportados ao Japão, talvez por uma vocação predatória de embolsar um dinheiro fácil e cair fora. Até um dia adoecer, e aprender finalmente o verdadeiro sentido de Cidadania. Lembro que aos trabalhadores estrangeiros em alguns países europeus, é debitado mensalmente na fonte, até mesmo um imposto denominado “Custo de Expatriação”. Injusto ou não, se se pretende obter os direitos, cumpre-se tbém os deveres.

  2. Paulo (Plurality) @ 10 Mai, 2008 : 01:23
    Fiquei com uma dúvida sobre o segura-saúde da prefeitura não ser oferecido aos assalariados. Ouvi relatos de cidades que não fornecem o benefício aos brasileiros por problemas anteriores de inadimplência. Por outro lado, em Nagoya, o seguro é obrigatório. Quem não participa do seguro-saúde da empresa é obrigado a se cadastrar no da prefeitura. Quem não o faz, e decide fazê-lo somente no momento de um acidente, por exemplo, precisa pagar retroativamente o período que ficou sem seguro. Além desses dois seguros principais, existes inúmeras empresas que oferecem outros seguros, com uma abrangência menor talvez, mas mesmo assim, melhor do que não ter seguro algum. Até onde eu entendo, os brasileiros sem seguro-saúde estão nessa situação por opção. E nesse ponto, compartilho com a visão da Cristina, que comentou antes de mim.

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Perfil

Ewerthon Tobace, jornalista, 31 anos. Um dia, meu avô resolveu enfrentar o desconhecido. Chegou ao Brasil de mala e cuia, sem falar a língua. Agora, faço o caminho inverso e, a cada dia, descubro os fascínios da ‘terra do sol nascente’. Moro no Japão desde 2001 e trabalho na mídia étnica com foco na comunidade brasileira.
 



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